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Anistia Internacional vai denunciar Javier Milei à ONU por ataques contra jornalistas

A Anistia Internacional anunciou que levará uma denúncia formal contra o presidente da Argentina, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A medida ocorre em resposta à escalada de hostilidades e declarações agressivas do mandatário contra profissionais da imprensa no país sul-americano.

Recentemente, o chefe de Estado argentino utilizou termos severos para criticar repórteres que conduziram investigações jornalísticas sobre sua gestão. Entre as declarações, sugeriu que os profissionais deveriam “queimar na fogueira”, além de desqualificá-los publicamente com ofensas e acusações de corrupção e manipulação política.

A ofensiva verbal do presidente aconteceu logo após a Justiça da Argentina determinar o arquivamento de um processo conhecido como “criptogate”, datado de fevereiro de 2025. O caso investigava possíveis irregularidades na criação de um ativo digital chamado $Libra, no qual o presidente e sua irmã, Karina Milei, teriam tido envolvimento. O juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi concluiu que não houve prática de crimes na conduta analisada.

Apesar do desfecho judicial favorável no caso, o governante recorreu às redes sociais, especificamente na plataforma X, para classificar a cobertura da imprensa como uma conspiração política e midiática articulada para desestabilizar sua administração. Na postagem, que incluiu publicação oficial, os repórteres foram chamados de mercenários e subornados.

Repercussão e gravidade institucional

Para a Anistia Internacional, as falas do presidente extrapolam o limite do debate político aceitável e aprofundam o assédio contra os meios de comunicação, colocando em risco a integridade física dos profissionais e enfraquecendo as garantias democráticas fundamentais. A organização destaca que o uso de analogias ligadas à violência extrema, como a menção a fogueiras, individualiza e estigmatiza os alvos dos ataques presidenciais.

A diretora-executiva da ONG no território argentino, Mariela Belski, ressaltou que a posição ocupada pelo chefe do Executivo exige uma postura de estrito respeito às liberdades públicas. Segundo ela, ao expor jornalistas publicamente e empregar retórica violenta, o governo estimula um ambiente de intimidação que pode encorajar novas agressões e desestimular o direito fundamental da sociedade à informação livre.

O cenário de hostilidade encontra respaldo em dados estatísticos levantados pelo Fórum de Jornalismo Argentino. O monitoramento da entidade registrou um total de 278 episódios de ataques contra a imprensa ao longo de 2025, o que representa um aumento de 55% em comparação ao ano anterior e marca o maior índice desde o início da série histórica, em 2008. O próprio presidente foi apontado como autor direto de 119 dessas ocorrências, liderando a lista de agressores individuais.

Articulação internacional e entidades de classe

A iniciativa da Anistia Internacional soma-se a outras movimentações de entidades representativas do setor. Em novembro do ano passado, a organização participou de uma audiência temática na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão autônomo vinculado à Organização dos Estados Americanos, para relatar o crescimento de práticas autoritárias, processos judiciais abusivos contra comunicadores e episódios de violência durante coberturas de protestos.

A Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, por meio da dirigente Carla Gaudensi, confirmou que a categoria vai apoiar formalmente a representação internacional. No mesmo sentido, a Federação Internacional de Jornalistas manifestou preocupação com o quadro institucional argentino. A presidente da entidade, a peruana Zuliana Lainez, pontuou que os episódios não podem ser vistos como meros debates políticos, mas sim como a construção sistemática de um clima de autocensura e risco para os trabalhadores da área.

O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires também publicou uma nota de repúdio, alertando que a incitação à violência por parte da mais alta autoridade do país exige uma resposta firme de todos os setores políticos para evitar que ameaças verbais se convertam em danos reais.

Casos recentes

A tensão entre o governo e profissionais da imprensa também tem gerado reflexos no âmbito internacional. No início do mês, o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr. foi impedido de entrar na Argentina após desembarcar no aeroporto Aeroparque, na capital argentina. Conhecido por suas análises críticas à condução econômica da atual gestão, o profissional teve sua residência permanente cancelada pelas autoridades migratórias locais, que impuseram ainda uma proibição de reingresso ao país pelo período de cinco anos.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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