
Exausto e sob os olhares da imprensa da grande Curitiba e do país, Eleandro Passaia, apresentador do programa Tribuna da Massa, deixou o Fórum do município de São José dos Pinhais, no final da tarde do último dia 3 de abril. Era o fim de um martírio de três dias de espera. Um ritual de paciência que começava às 8h da manhã e terminava sempre no final da tarde. A sua presença como testemunha tinha relação com sérias acusações de propagação de fake news, as notícias falsas. Alvo de diversas notícias nacionais, Passaia estava lá para explicar, entre outras coisas, a origem de acusações graves noticiadas por ele. Algumas até chegaram a ser investigadas pela Polícia Civil do Paraná e os fatos não foram confirmados como verdadeiros.
Diferente do imponente a corajoso Passaia que aparece na Televisão, Eleandro se mostrou nervoso e desolado durante todo o depoimento. Deixou a cadeira de testemunha da sala de audiências sem esclarecer as denúncias de fake news. As supostas notícias falsas que o arrastaram a um protagonismo tão rumoroso quanto o próprio caso em que mergulhou, uma espécie de vale tudo na cobertura, ainda tendem a render novos capítulos na justiça e nos órgãos competentes de imprensa, conforme apurou a reportagem do Araucária no Ar. Fantasmas que tendem a assombrar Passaia por um longo tempo.
Repreendido
A fala de Eleandro Passaia era o momento mais esperado daquela nova rodada de audiências. Na área reservada à imprensa jornalistas demonstravam curiosidade em saber do desfecho. Era a segunda fase do processo de instrução e julgamento do caso Daniel, e nela foram ouvidas 45 testemunhas de defesa dos sete réus do processo. Entre os dias 1º e 3 de abril, muita gente passou pela sala de audiências. Do chefe de segurança da casa noturna Shed, as mães de Edison Brittes e Cristiana Brittes, muita gente falou em juízo. Eleandro Passaia foi a última testemunha, um depoimento tenso, confuso, colhido no apagar das luzes daquele longo e derradeiro dia de trabalhos.
Enquanto esperava seu nome ser chamado, o apresentador passou por momentos de constrangimento por conta de seu comportamento dentro do Fórum. Foi repreendido por oficiais de justiça por estar circulando pelos corredores e conversando com pessoas e testemunhas. Pela lei, testemunhas não podem conversar com ninguém e precisam ficar isoladas em uma área específica até que sejam chamadas. Advertido diversas vezes, Passaia insistiu em desrespeitar a lei e chegou a ser abordado por Policiais Militares que ordenaram o seu retorno ao local das testemunhas. Foi proibido de dar entrevistas dentro do Fórum em horário de audiências e submetido a permanecer na condição de testemunha, sob as ordens da justiça. O fato chamou a atenção e virou notícia nacional pelo Portal UOL.
Depoimento
As 16h20 daquele 3 de abril, Eleandro Passaia finalmente foi chamado para prestar seu depoimento. Sob o olhar de pelo menos uma dezena de jornalistas que cobriam o caso para veículos locais e nacionais, advogados de defesa, promotor de justiça, juíza e assistência de acusação, o apresentador assumiu não ser jornalista, não ter curso superior e ter concluído apenas o ensino médio. Antes disso, tentou ensaiar um embate e estabelecer polêmica com o advogado Claudio Dalledone. Foi repreendido. “Aqui eu pergunto e o senhor responde”, decretou o advogado. Em outro momento, ainda nos primeiros minutos do depoimento, Passaia, ao ser sabatinado sobre sua história de vida, olhou para juíza e perguntou: “essas perguntas são mesmo necessárias ?” e recebeu como resposta um sonoro e impessoal “Sim”da magistrada.
“Um passageiro da agonia!”, comentou um profissional da imprensa ao falar sobre o depoimento de Passaia. Para muitos jornalistas ouvidos pela reportagem do Araucária no Ar, Passaia não teve condições de esclarecer como e por que meios produziu suas reportagens. Em determinado momento do depoimento, não teve condições, por exemplo, de definir a diferença básica entre furto e roubo, conhecimento trivial na cartilha de jornalistas que narram o cotidiano policial.
Papagaio
O desenrolar de seu depoimento teve uma atmosfera de aflição. Alvo de perguntas objetivas quanto a produção das notícias suspeitas de serem falsas, o apresentador não conseguiu explicar a origem da maioria das informações contidas nas reportagens. Foram vários os momentos em que tentou “empurrar” para a equipe de produção do Tribuna da Massa a responsabilidade pelas apurações. Disse que jamais se envolveu em todo o processo, e que na maioria dos casos apenas “dava as notícias”, contrariando o que afirmou no início do depoimento, quando assumiu participar de todo o processo de produção das reportagens.
A insistência em se eximir das responsabilidades de checagem de fontes, informações e validação das notícias o levou a ser comparado a um papagaio pelo advogado Claudido Dalledone. “O senhor então é um tipo de papagaio, só repete o que te falam”, comparou o criminalista. Para se defender, Passaia também acusou uma emissora de Rádio da Grande Curitiba de publicar uma fake news em seu Portal de Notícias. “Eles deram, nós repercutimos”, se esquivou.
Não esclareceu
Entre as notícias consideradas falsas, a de maior repercussão em todo o país foi alvo de uma criteriosa lista de perguntas feitas pelo advogado Claudio Dalledone Junior. A notícia de que Edison Brittes Junior havia oferecido sua esposa para fazer sexo a três com Daniel Corrêa Freitas, tornando o jogador uma vítima de uma
suposta “armadilha sexual” foi claramente desmontada e posta em xeque pela defesa. Passaia não soube responder, por exemplo, se a testemunha apresentou provas reais daquilo que dizia. Não foi capaz de responder se a informação foi devidamente validada, checada e confirmada antes de ir ao ar. Não apresentou nada que comprovasse as afirmações e se “enrolou” ao dizer que “só quem estava naquela festa poderia dizer o que de fato aconteceu”.
O assunto era delicado, e ficava claro que a suposta testemunha tinha apenas a “palavra” como prova. Isso fez com que Passaia voltasse a empurrar as perguntas sem respostas para a “conta” da produção do noticiário. Sobre a origem da testemunha, ficou em silêncio com uma pergunta feita pelo criminalista Claudio Dalledone. “O senhor sabia que a sua testemunha deu como endereço de residência fixa uma Casa de Acolhimento de Vulneráveis ?”. Passaia nada esclareceu e na ânsia de se justificar, colocou até o delegado chefe das investigações, Dr. Amadeo Trevisan, na esteira da suposta fake news. “Mas como o delegado vai saber se era ela”, disse Passaia ao responder sobre a pessoa indicada pela sua produção à Polícia Civil de São José dos Pinhais como a suposta testemunha da “armadilha sexual”. “Eu também não sei”, disse Passaia em uma clara postura defensiva, postura bem diferente daquela que adotou quando trouxe a notícia ao ar e afirmava que a “testemunha” era decisiva e que “sua equipe” já havia colocado ela em contato com a polícia.
Suspeita de Manipulação
Outro ponto sensível e polêmico da reportagem sobre a “Armadilha Sexual” trouxe a suspeita de uma possível manipulação. O advogado Claudio Dalledone Junior perguntou a Passaia sobre as razões de o programa ter mudado o status da testemunha de um dia para o outro em reportagens distintas. Passaia mais uma vez não esclareceu e foi evasivo em suas respostas. A reportagem do Araucária no Ar foi atrás das duas notícias citadas. Na primeira, que foi ao ar no dia 8 de novembro, Eleandro Passaia fala em uma testemunha decisiva que mudará os rumos da investigação. Essa testemunha seria alguém que teria ouvido de alguém próximo de Edison uma suposta confissão. No programa, Passaia é detalhista em explicar quem é a suposta testemunha. “O Edison chega no dia seguinte e fala tudo o que aconteceu para essa pessoa, alguém ouve e procura o Tribuna da Massa”, disse o apresentador no dia 8 de novembro ao chamar a reportagem.
No dia seguinte, no dia 9 de novembro, o programa revive a história, só que claramente o status da testemunha é outro. Ao comentar a retomada do assunto, Eleandro Passaia diz; “Essa pessoa não estava na casa, mas é do círculo íntimo do Edison Brittes”. Assistindo as duas reportagens, é possível constatar que a testemunha passa de alguém que ouviu de alguém, para ser a própria pessoa que ouviu de Edison. Sabatinado sobre essa mudança de status da testemunha, Passaia mais uma vez não conseguiu esclarecer, distribuindo responsabilidades a equipe do Tribuna da Massa.
Espancamento de Edison Brittes
Passaia também foi indagado sobre o que ele tratou como um “furo” de reportagem. A notícia, dada por sua equipe em 15 de novembro, trazia em “primeira mão” um suposto espancamento de Edison Brittes dentro da carceragem. A defesa perguntou a todo o momento se Passaia havia confirmado a informação antes de noticiar o fato. O apresentador se limitou a responder que a informação era de um escrivão de polícia. Porém, quando indagado se a reportagem checou a veracidade da informação com o Departamento Penitenciário, o apresentador disse que não. Também afirmou não ter confirmado a informação com a Polícia Civil e com o Chefe de Carceragem do local onde Edison Brittes estava preso. Na época, a Polícia Civil desmentiu a informação imediatamente após a notícia e a defesa de Edison Brittes tratou, por meio de nota, o fato como uma fake news.
Vazamento de foto de Cristiana nua
Uma foto íntima de Cristiana Brittes veiculada pelo Tribuna da Massa também foi objeto de esclarecimentos no depoimento. A defesa da família Brittes queria saber quem era o responsável por aquele vazamento. Eleandro Passaia disse que não sabia de nada e que pediu para tirar do ar, empurrando a responsabilidade para sua equipe e justificando que a foto circulava na internet. Assumiu a veiculação da imagem, um crime aos olhos da Lei.
Loja de Celulares
Outra notícia veiculada por Eleandro Passaia e o Tribuna da Massa, e que foi alvo de acusação de fake news colocou o apresentador em situação delicada durante o depoimento. A notícia dava conta de que Cristiana Brittes teria procurado uma loja de celulares para apagar todas as informações de seu aparelho e ocultar provas logo após a morte do jogador Daniel. A defesa da família Brittes pediu provas sobre a informação e perguntou se existiu validação da informação. Mais uma vez Passaia jogou a responsabilidade para sua equipe. Disse documentos, notas fiscais e ordens de serviço que comprovassem que Cristiana queria apagar os dados do seu celular e evitou detalhar qualquer resposta.
A verdade sobre o celular
Diante da negativa de Eleandro Passaia em ter provas para a acusação que fez no ar, o advogado Claudio Dalledone Junior então disse a Passaia que o delegado chefe das investigações, Dr. Amadeo Trevisan, havia ouvido o dono da loja. “Ela levou o aparelho lá para arrumar o sistema de áudio que estava estragado. Existe uma ordem de serviço e uma nota fiscal, o senhor sabia?”. O apresentador estava encurralado. Dalledone, para encerra o assunto, ainda fez uma pergunta a atônita testemunha. “O senhor tem uma ordem de serviço que prove as acusações que fizeram?”
Acusação a advogados e falso testemunho
Eleandro Passaia foi arrolado como testemunha de Cristiana Brittes. No ar, passou dias visivelmente revoltado com a intimação. Dizia ter sido arrolado como testemunha de defesa de Edison Brittes. Chegou a contratar um grande escritório de advocacia da capital para o ajudar. Pelos documentos juntados ao processo, Passaia não queria ir e pedia dispensa da obrigação com a justiça. Enquanto falava no ar que enfrentaria Edison Brittes, nos bastidores, dentro dos autos, pedia para não ser ouvido como testemunha. Alegava não ter nada para acrescentar ao caso. Enquanto suas tentativas de evitar a sabatina tramitavam na justiça, Passaia dizia no ar, para seus telespectadores que “gostaria de olhar nos olhos de Edison Britets e falar tudo”.
Na audiência, perguntado sobre os pedidos para ser dispensado da condição de testemunha, negou tudo. Chegou a dizer que seus advogados agiram por conta própria, contra a sua vontade. Pareceu ter esquecido que, semanas antes, ao vivo em seu programa, chegou a cometer uma gafe ao noticiar que a “justiça havia deferido (aceito) seu pedido de não comparecer a audiência”. O documento na verdade negava seu pedido de dispensa.
Acuado e negando o fato de pedir para não ir a audiência, Passaia desafiou a defesa da família Brittes, diante da juíza que presidia o processo, a apresentar qualquer documento com sua assinatura. O advogado Claudio Dalledone então apresentou a procuração assinada pelo próprio Eleandro Passaia dando poderes a seus advogados para pedir sua dispensa junto à justiça. Passaia desabou. Era o último ato de um “massacre” como alguns jornalistas classificaram o depoimento.
O advogado de Igor King e David William, Rodrigo Faucz, pediu que a Polícia Civil fosse oficiada para apurar um possível caso de falso testemunho e a Ordem dos Advogados do Brasil fosse acionada para investigar um possível ato do advogado de ter agido contra os interesses do seu cliente. Os pedidos foram feitos diante das afirmações de Passaia, em depoimento, de que seus advogados agiram por conta própria, sem seu consentimento. Por outro lado, diante da existência de procuração assinada, pediu que a Polícia Civil também fosse acionada para investigar se Passaia mentiu em depoimento, o que estaria configurado em crime de falso testemunho.
Edições
Um dia depois da divulgação dos depoimentos feitos pela justiça, Eleandro Passaia e sua equipe correram apresentar sua versão para o depoimento. Uma edição curta, que trazia o apresentador como vitorioso, o grande vencedor. Não foram colocados os trechos que tratavam das fake news, das acusações aos próprios advogados que o representam, tampouco revelaram as diversas vezes em que foi advertido pela juíza a responder as perguntas. Apenas trechos, como de quando a juíza adverte o advogado de Eduardo da Silva, um dos jovens acusados pela morte do jogador, de que Eleandro Passaia não era réu, nem acusado, mas sim uma testemunha.
Por outro lado, diversos vídeos que trazem trechos do depoimento sobre as acusações de fake news começaram a circular nas redes sociais. Neles, o apresentador aparece em dificuldades, contradições e visivelmente nervoso.
Procurada pela reportagem a assessoria de imprensa e jurídica, assim como a direção da Rede Massa não deram retorno sobre o assunto.
Sem edição, assista abaixo o depoimento na íntegra:
https://www.youtube.com/watch?v=TLj6zgUmcJ4&t=14s
https://www.youtube.com/watch?v=km-bBMol3HQ










