
Uma pesquisa recente divulgada nesta segunda-feira revela um panorama preocupante em relação aos profissionais de imprensa no Brasil. O estudo aponta que as condições e características inerentes ao trabalho jornalístico, somadas ao assédio constante e à escassez de apoio social, colocam em risco a saúde mental da categoria.
O levantamento, intitulado Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil, foi produzido pela Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho (Fundacentro), contando com o apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). A publicação reforça a urgência de que empregadores, entidades representativas e formuladores de políticas públicas reconheçam a gravidade do problema e busquem soluções para promover um ambiente laboral mais seguro e saudável.
De acordo com os dados obtidos por meio de um questionário online respondido por 257 jornalistas brasileiros, quase metade dos participantes, ou seja, 48%, relatou sofrer com sintomas frequentes de insônia. Este índice supera as médias nacionais registradas pelo relatório Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel Brasil) 2006-2024, do Ministério da Saúde, cujos números variam entre 28,7% e 38% nas capitais monitoradas.
O estudo também identificou que 36% dos entrevistados apresentam episódios típicos de quadros de ansiedade. Além disso, metade dos profissionais ouvidos (50%) afirmou enfrentar problemas relacionados à depressão. Deste grupo, 9% apontaram sintomas de depressão severa, enquanto 16% descreveram quadros considerados extremamente severos.
Outro ponto de alerta levantado pela pesquisa diz respeito ao consumo de álcool. Cerca de 21,5% dos respondentes admitiram ingerir bebidas alcoólicas em padrões que indicam risco (18,7%) ou uso nocivo (1,6%). Adicionalmente, as respostas de 1,2% dos participantes apontaram para um quadro de provável dependência química.
Riscos psicossociais e assédio
As pesquisadoras Bruna Balarotti e Elaine Cristina Marqueze, responsáveis por apresentar o estudo durante uma reunião do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional, destacam que a própria dinâmica da profissão traz o estresse como um fator intrínseco. Essa característica expõe os trabalhadores a riscos psicossociais diários.
Além da pressão inerente à atividade, os jornalistas enfrentam diferentes formas de violência psicológica. Pelo menos 26% dos profissionais relataram ter sido vítimas de assédio moral no ambiente profissional, índice que pode saltar para 37% dependendo dos critérios metodológicos aplicados.
As autoras do relatório enfatizam que a prevalência do assédio moral, somada aos índices de cyberbullying (que atingem 30%), configura um dos achados mais alarmantes da investigação. Para elas, esses percentuais elevados demonstram que uma parcela expressiva da classe jornalística sofre com a violência psicossocial tanto no mundo físico quanto no digital.
A situação é agravada pela falta de suporte no cotidiano laboral. Cerca de 61% dos entrevistados disseram receber pouco apoio social, métrica que avalia a qualidade da interação com colegas e superiores. Esse isolamento, combinado com o baixo controle sobre as tarefas executadas sob intensa pressão, resulta em impactos diretos e negativos na qualidade de vida dos trabalhadores, refletindo-se em índices de satisfação com o trabalho que figuram abaixo da média.
Para as pesquisadoras e para a presidenta da Fenaj, Samira de Castro Cunha, as repercussões dessas condições ultrapassam os limites da categoria profissional. Por ser uma atividade basilar para a sustentação das instituições democráticas, o esgotamento dos comunicadores afeta diretamente o direito fundamental da sociedade à informação de qualidade.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br









