
Uma sequência de atentados contra templos e imagens sagradas em diferentes estados brasileiros tem intensificado as discussões sobre o crescimento da intolerância religiosa no país. Os episódios recentes incluem desde incêndios criminosos contra estabelecimentos comerciais de artigos religiosos até a destruição de monumentos de forte apelo espiritual para comunidades católicas e de matriz africana.
Um dos casos mais graves ocorreu na madrugada de 9 de setembro, no centro de Fortaleza, no Ceará. Um estabelecimento comercial de artigos religiosos católicos foi alvo de um atentado com o uso de um coquetel molotov. O local trazia uma ameaça explícita fixada na entrada com a frase: “Se reabrir, todos morrem”. Na mesma noite, outras duas lojas católicas e um templo de umbanda também tiveram suas fachadas atingidas por chamas na capital cearense.
A Polícia Civil assumiu as investigações para identificar os responsáveis pelos crimes. Com repercussão nas redes sociais, o padre Josileudo Queiroz, da Igreja de São José Operário de Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, classificou o episódio de forma categórica:
“Nós vivemos num país onde devemos entender que o país é laico, ou seja, não tem uma religião oficial. Não é ateu, porque há muitas religiões, há muitas expressões de fé. Isso que aconteceu aqui em Fortaleza e que acontece no Brasil afora se chama crime de intolerância religiosa”.
O cenário de hostilidade não se restringiu ao Ceará. Um dia antes do atentado em Fortaleza, na cidade paranaense de Londrina, a cabeça de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, localizada em frente a um comércio de artigos religiosos, foi arrancada. Duz dias depois, em Salvador, na Bahia, uma imagem de Nossa Senhora das Graças foi quebrada. Já em 22 de setembro, também na capital baiana, a representação da primeira santa brasileira, Santa Dulce dos Pobres, acabou totalmente destruída.
Diante da escalada de episódios semelhantes pelo território nacional, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal (PF) investigue o que aparenta ser uma onda coordenada de ataques a imagens religiosas católicas.
Estatísticas de intolerância religiosa no Brasil
Os registros oficiais demonstram que o problema afeta diversas crenças no país. Conforme dados do Disque 100, apenas no primeiro semestre de 2026, contabilizando o período de janeiro a junho, o canal recebeu 1.252 denúncias envolvendo pelo menos uma violação relacionada à liberdade de crença ou a práticas de intolerância.
Apesar da recente visibilidade dos ataques a símbolos católicos, os praticantes de candomblé e de umbanda continuam sendo as principais vítimas históricas desse tipo de crime, de acordo com levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mesmo que representem cerca de 1% da população brasileira. Entre janeiro e junho deste ano, foram contabilizadas 270 denúncias voltadas a essas religiões, o que representa um acréscimo superior a 40% em comparação com o mesmo intervalo de 2025, quando houve 192 notificações.
Entre a comunidade católica, o crescimento das queixas também foi expressivo no primeiro semestre de 2026 frente ao ano anterior. Os registros saltaram de 15 para 34 ocorrências, configurando uma alta superior a 100%.
Durante a Semana Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, realizada em janeiro no Rio de Janeiro, o secretário-geral da ACT Alliance (Action by Churches Together), Rudelmar Faria, apontou que a exclusão com base na fé tem sido utilizada como estratégia política em âmbito global:
“Nós estamos num momento global em que a religião é instrumentalizada para excluir, porque as religiões hoje, esse movimento da confluência de fundamentalismos, buscam justamente excluir grupos. E são grupos que não são cristãos, brancos, ricos e mais do que a sua própria igreja financeiramente, apoiar um grupo de políticos que tem o poder para tomar decisões e criar leis que são excludentes”, pontuou, mencionando que as principais parcelas afetadas incluem mulheres, a população LGBTI+, povos indígenas e jovens negros de baixa renda.
Consequências legais
O rigor da lei brasileira para coibir tais infrações é destacado por especialistas jurídicos. O defensor público do Ceará, Igor Barreto, detalha o tratamento legal conferido a esse tipo de conduta criminosa:
“O mais importante seja ressaltar o fato de que esses crimes são todos insuscitíveis de fiança, de indulto, são crimes imprescritíveis, eles podem ser processados a qualquer momento”.
No ordenamento jurídico brasileiro, a prática, a indução ou a incitação à discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional prevê penas que variam de um a cinco anos de reclusão, além de aplicação de multa.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br



