
A celebração em honra a São Cosme e São Damião movimentou diferentes pontos do Rio de Janeiro, reunindo fiéis em igrejas católicas e terreiros de umbanda para manter viva uma tradição secular de devoção, distribuição de doces e combate à intolerância religiosa.
Devota dos santos desde a infância, a professora Caroline Pinho de Araújo, de 40 anos, relata que sua ligação com os irmãos protetores se fortaleceu ao longo dos anos, transitando da Igreja Católica para a umbanda. “Eu agradeço a eles meu emprego, minha saúde, a minha família, e, todo ano, além de vir à missa, a gente também distribui doce em agradecimento a tudo o que a gente tem. É importante manter essa tradição. Crianças e adultos ficam felizes. Ao mesmo tempo, a gente combate discursos de ódio e de intolerância. Pregamos o amor e a alegria de ser criança”, destacou.
Caroline participou de uma das missas realizadas na Paróquia de São Cosme e São Damião, localizada no bairro do Andaraí, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A data oficializa a festividade dedicada aos irmãos santificados que conquistaram forte espaço na cultura e no carinho dos cariocas.

O padre Luiz Gustavo Menezes do Nascimento, vigário da paróquia, enfatizou a satisfação em acolher peregrinos portadores de trajetórias marcantes. O sacerdote recorda que também participava das festividades desde a infância, coletando doces pelas ruas.
“Mas o que me arrastou de verdade foi o testemunho desses homens que deram a vida por Cristo. Então, 1,7 mil anos depois, poder comemorar esses homens é motivo de graça. São Cosme e São Damião foram perseguidos pelo imperador romano Diocleciano, que é responsável por 70% da cultura popular dos cariocas. São Jorge, São Sebastião e São Cosme e São Damião foram martirizados a mando desse imperador”, explicou o padre Luiz.

Sincretismo religioso e resistência cultural
A data também possui profundo significado para as religiões de matriz africana. No Terreiro de Umbanda Cosme e Damião, situado em Vila Isabel, também na Zona Norte da capital fluminense, a programação do domingo incluiu a distribuição de guloseimas como bolos, cachorros-quentes, algodão-doce, além de brinquedos e kits de higiene pessoal voltados para adultos e crianças.
A mãe de santo Ana Carolina Oliveira aponta que sua família cultua a tradição de Cosme e Damião há mais de seis décadas, sendo este o sexto ano consecutivo de celebrações abertas no terreiro. Ela esclarece que a associação entre os santos católicos e as divindades afro-brasileiras ocorreu como forma de preservação espiritual durante o período da escravidão.
“Os escravizados precisaram fazer o sincretismo religioso com a Igreja Católica para continuar a professar sua fé. Cosme e Damião são simbolizados como os erês, que são entidades espirituais infantis nas religiões de matriz africana”, pontua a liderança religiosa.

Entre os presentes na celebração estava a massoterapeuta Vania Victorio Gonçalves da Silva, acompanhada da filha Natasha e da amiga Mirele, ambas de 14 anos. Seguida de uma linhagem familiar que sempre distribuiu doces na data, Vania reforça o valor histórico do evento: “Essa tradição é o resgate da nossa história, dos nossos ancestrais”.
A jovem Mirele Marinho da Silva complementa que a participação ativa é uma declaração contra preconceitos. “Acho importante que a gente celebre abertamente, porque é uma forma de mostrar que a gente não se importa com a intolerância religiosa”, afirmou a estudante.

O historiador e escritor Luiz Antonio Simas recorda que a trajetória dos irmãos remonta ao século III d.C., na região onde hoje se localiza a Síria. De acordo com relatos históricos e tradicionais, eles atuavam como médicos que prestavam atendimento gratuito a crianças e populações vulneráveis, acabando martirizados durante as perseguições do Império Romano aos cristãos.
“O que se conta é que eles começaram a se materializar, apareciam materializados para crianças doentes. A tradição fala que eles costumavam ofertar doces para as crianças adoentadas porque dessa maneira elas ficavam mais felizes e a alegria era importante no processo de cura”, pontua o historiador.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br



