
Em breve, dois jovens brasileiros com trajetórias marcadas pela escassez de recursos hídricos embarcarão rumo a Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. Eles farão parte de um grupo restrito de 100 ativistas e pesquisadores vindos de 75 países diferentes, escolhidos para integrar a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a Água, marcada para acontecer entre os dias 8 e 10 de dezembro.
Os representantes do Brasil são o ativista Erleyvaldo Bispo, natural de Lagarto, município localizado no agreste de Sergipe, e a bacharel em direito Laura de Azevedo Viana, moradora de Salvador, na Bahia. O processo seletivo foi conduzido pelo programa Global Youth Water Envoys, iniciativa promovida pelo Centro da Juventude Árabe (AYC) em parceria estratégica com o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos.
O programa recebeu candidaturas de aproximadamente 2 mil pessoas ao redor do mundo, buscando selecionar perfis que mantêm envolvimento direto com a temática da água por meio de vivências comunitárias, ativismo ou projetos sociais. Com a seleção concluída, os participantes iniciam um ciclo de dois meses de preparação intensiva, cujo objetivo é capacitá-los para inserir as perspectivas da juventude e as reais demandas hídricas locais nas negociações internacionais.
Desafios e perspectivas da juventude
A Conferência da ONU sobre a Água é organizada conjuntamente pelos Emirados Árabes e pelo Senegal, constituindo o terceiro encontro global de alto nível sobre o tema desde 1977, sendo o segundo realizado em formato recente após a edição de 2023. O evento tem como foco principal acelerar o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), que visa assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para toda a população mundial.
Para Sultan bin Saif Al Neyadi, ministro para Assuntos da Juventude dos Emirados Árabes e vice-presidente do Centro da Juventude Árabe, os jovens selecionados não atuarão apenas como observadores, mas como colaboradores técnicos capazes de confrontar velhos paradigmas. Segundo ele, o impacto da participação dessa nova geração dependerá do rigor de sua preparação e da habilidade em traduzir vivências práticas em propostas executáveis para os líderes governamentais.
Realidades locais e a luta por soberania
A trajetória de Erleyvaldo Bispo, de 28 anos, reflete os desafios enfrentados por diversas comunidades no interior do Nordeste brasileiro. Nascido e criado no agreste sergipano, ele conviveu diretamente com a seca prolongada, a escassez de poços e a dependência de caminhões-pipa. Essa vivência o impulsionou a fundar a Organização Não Governamental (ONG) Águas Resilientes, voltada ao desenvolvimento de soluções para o abastecimento potável.

O ativista destaca que sua missão em Abu Dhabi vai além de uma representação individual. Em articulações prévias realizadas no Rio de Janeiro, Erleyvaldo já pontuava a urgência de debater o acesso à água como uma questão de soberania nacional. Em sua bagagem para o Oriente Médio, ele levará preocupações relativas a fenômenos climáticos severos, como o Super El Niño e os riscos projetados para a estabilidade ambiental da Amazônia nas próximas décadas.
“Minha grande bandeira lá é exatamente trazer luz para o investimento em projetos e iniciativas voltadas à questão do acesso à água”, ressalta o sergipano, enfatizando a necessidade de priorização de investimentos voltados ao Sul Global.
Combate ao racismo ambiental
A segunda representante brasileira, Laura de Azevedo Viana, de 23 anos, une sua formação acadêmica em direito à pesquisa sobre governança dos oceanos e justiça climática, atuando vinculada ao Instituto Brasileiro de Direito do Mar. Moradora de Cajazeiras, bairro periférico de Salvador com predominância de população negra, a jovem relata ter vivenciado de perto os impactos do racismo ambiental.

“Já passei por diversas situações em que o fornecimento de água era cortado por dias, já chegou a durar semanas, um bairro inteiro sem água”, relata Laura, apontando que tal vulnerabilidade não atinge de igual maneira as áreas mais nobres e de população branca da capital baiana.
Para a pesquisadora, a conferência internacional representa uma oportunidade essencial para aproximar o ativismo social do rigor científico. Ela defende que a proteção de comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e costeiras seja colocada no centro das discussões globais sobre saneamento e preservação dos recursos hídricos, exigindo canais permanentes de diálogo institucional para a juventude.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br










