Meio ambiente

Avanço da desertificação no Brasil desafia segurança alimentar e hídrica

Um contingente estimado em 39 milhões de pessoas no Brasil reside atualmente em zonas vulneráveis ao processo de desertificação. Esse grupo inclui agricultores familiares, sertanejos, povos indígenas, comunidades quilombolas, geraizeiros, pantaneiros e pampeiros, todos expostos diretamente aos impactos da degradação ambiental sobre os recursos naturais.

Embora o conceito remeta a paisagens extremas como o deserto do Saara, no norte da África, ou o Atacama, no Chile, a desertificação possui um significado mais abrangente. Trata-se de um fenômeno de degradação da terra em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, impulsionado predominantemente por ações humanas — a exemplo do desmatamento e de práticas agrícolas inadecuadas — combinado com oscilações climáticas.

De acordo com dados recentes da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), cerca de 18% do território nacional é classificado como Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD). O tema ganha destaque internacional com a participação de delegações brasileiras na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada na Mongólia.

Ivi Aliana, coordenadora executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), ressalta que as populações tradicionais e vulneráveis sofrem os reflexos de forma imediata. Contudo, ela adverte que as consequências extrapolam os limites rurais. A perda de capacidade produtiva do solo afeta a oferta de alimentos, compromete a segurança hídrica, impulsiona a elevação das temperaturas e impacta diretamente a economia urbana e rural.

Balsas (MA), 10/10/2025 – O agricultor familiar Orlando Alves da Silva observa uma das nascentes do Rio das Balsas seca, em Limpeza, nos Gerais de Balsas.

Evolução do fenômeno no país

Entre os anos 2000 e 2020, a extensão territorial afetada pela desertificação no Brasil passou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados. Esse acréscimo de 170 mil quilômetros quadrados equivale à soma das áreas dos estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

O problema concentra-se nos nove estados nordestinos, estendendo-se também ao norte de Minas Gerais e do Espírito Santo, ao nordeste do Rio de Janeiro e ao noroeste do Mato Grosso do Sul. Nessas localidades, o clima varia entre subúmido seco, semiárido e árido.

Um marco importante ocorreu em 2023, quando um estudo conjunto do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificou, pela primeira vez, uma região de clima árido no país, abrangendo 6 mil quilômetros quadrados entre os estados de Pernambuco e Bahia.

Mapa comparativo da evolução da desertificação no Brasil.

A situação crítica da Caatinga

Entre os biomas brasileiros, a Caatinga apresenta os índices mais elevados de deterioração do solo, com 11% de sua área em situação crítica e severa, o equivalente a 100 mil quilômetros quadrados. Aproximadamente 42,6% da cobertura vegetal nativa já foi suprimida.

Apesar disso, pesquisas coordenadas pelo Observatório da Caatinga e da Desertificação (OCA) e pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) apontam que o bioma possui alta eficiência no sequestro de carbono. Cerca de 72% desse carbono fica armazenado no solo, transformando a região em um sumidouro natural de longo prazo fundamental para o equilíbrio climático global.

Especialistas defendem que a Caatinga seja explicitamente reconhecida nos documentos oficiais negociados na COP17, assegurando que o semiárido brasileiro permaneça no centro das agendas científicas internacionais de combate às mudanças climáticas até 2030.

Cactos típicos da Caatinga, bioma no Semiárido Nordestino.

Políticas públicas e estratégias de recuperação

Signatário da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) desde 1997, o Brasil estruturou novas diretrizes para mitigar o problema. Em março de 2026, foi lançado o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043), integrando frentes de meio ambiente, saúde, educação, infraestrutura e inovação tecnológica.

Outra iniciativa governamental é o Programa Recaatingar, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que estabelece a meta de recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas na Caatinga ao longo das próximas duas décadas. O foco recae sobre a restauração produtiva, o manejo sustentável e a valorização de saberes tradicionais das comunidades locais.

Paisagem do semiárido brasileiro.

Iniciativas da sociedade civil, como as promovidas pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), demonstram resultados práticos na convivência com a seca por meio da construção de cisternas para captação de água da chuva, distribuição de sementes adaptadas e fomento à agroecologia.

Cisterna construída com apoio de organizações sociais para acesso à água potável.

A cobertura jornalística dos desdobramentos da COP17 na Mongólia continuará a monitorar como as negociações globais repercutem sobre as estratégias de preservação e desenvolvimento sustentável implementadas no território brasileiro.

Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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