Esporte

Cinco décadas de história paralímpica: Familiares celebram primeira medalha do país

O esporte paralímpico brasileiro consolidou seu patamar internacional ao encerrar os Jogos de Paris em 2024 entre as cinco maiores potências do mundo na modalidade. Com uma trajetória marcada por centenas de pódios ao longo da história, o país celebrou recentemente os 50 anos do início dessa caminhada de sucesso, que teve seu pontapé inicial com uma conquista pioneira na década de 1970.

As relíquias daquela primeira conquista estiveram em exibição no Centro de Treinamento Paralímpico, localizado em São Paulo. A data escolhida para a homenagem teve forte teor simbólico: foi em um 6 de agosto, no ano de 1976, na cidade canadense de Toronto, que os atletas Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa faturaram a inédita medalha de prata na modalidade lawn bowls, esporte extinto semelhante à bocha e cuja tradução literal significa boliche de gramado.

Para familiares dos pioneiros, o momento representa a valorização de uma memória que por muito tempo permaneceu invisível. Noêmia Almeida, sobrinha e filha criada por Robson Sampaio, destacou a importância de resgatar o sacrifício daqueles que abriram portas. Segundo ela, a atual estrutura marcada por transmissões televisivas e visibilidade é fruto da luta solitária de figuras do passado.

A trajetória de Robson foi moldada pela superação. Paraplégico após um acidente de trabalho em uma fábrica de papéis nos Estados Unidos, onde teve a coluna comprimida por um rolo, ele utilizou a indenização recebida para fundar, em 1958, o Clube do Otimismo, no Rio de Janeiro. A instituição oferecia acolhimento e reabilitação para pessoas com deficiência sem recursos financeiros.

Naquela época, a ausência de políticas públicas voltadas ao paradesporto exigia esforço hercúleo dos próprios atletas. Noêmia lembra que o tio percorria gabinetes de deputados e autoridades em busca de apoio financeiro para custear passagens e uniformes para representar o Brasil em competições internacionais.

06.08.26 - Meeting Paralímpico Loterias Caixa de Atletismo, realizado no CT Paralímpico em São Paulo. Foto: Marcello Zambrana/CPB

Luiz Carlos da Costa, conhecido carinhosamente como “Curtinho”, foi um dos frequentadores acolhidos pelo Clube do Otimismo, onde estreitou laços de amizade profunda com Robson. Atualmente com 79 anos e em tratamento contra o Alzheimer, Luiz Carlos foi lembrado por outro sobrinho de Robson, Paulo Robson de Almeida, como um parceiro inseparável nas quadras e na manutenção dos equipamentos.

A dupla viajou a Toronto originalmente para disputar as provas de basquete em cadeira de rodas. No entanto, acabaram convidados a participar também do lawn bowls, modalidade que permitia acúmulo de provas naquele período. No Etobicoke Lawn Bowling Club, os brasileiros garantiram o segundo lugar no pódio, ficando atrás apenas da dupla da Austrália, enquanto representantes da Grã-Bretanha completaram a cerimônia de premiação.

O cenário do esporte adaptado no Brasil passou por transformações profundas desde aquela conquista histórica. Em 1995, foi fundado o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), entidade que três anos mais tarde integrou formalmente o Sistema Nacional do Desporto por meio da Lei Pelé.

A virada financeira e estrutural veio com a inclusão do comitê na Lei Agnelo Piva, em 2001, que destinou parte dos recursos arrecadados pelas loterias federais para o fomento esportivo, com uma fatia específica direcionada ao paradesporto. Anos mais tarde, em 2016, a inauguração do Centro de Treinamento Paralímpico em São Paulo consolidou-se como um dos maiores legados dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro, funcionando hoje como polo de excelência de alto rendimento e de iniciação gratuita para jovens com deficiência.

Para a família, o legado de Robson Sampaio transcende as medalhas e reflete uma luta incessante pela inclusão social e profissional das pessoas com deficiência, provando que o esporte foi apenas a consequência visível de um sonho coletivo.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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