
O fascínio pela Sétima Arte muitas vezes desperta ainda na infância. Por volta dos 5 anos, as brincadeiras de Miguel Figueiredo Viglio já envolviam a montagem caseira de filmes com tramas de super-heróis. Conforme o interesse crescia, ele deu um passo importante aos 7 anos ao ingressar em um curso de stop-motion, técnica de animação quadro a quadro que utiliza fotografias sucessivas de objetos reais.
“Comecei a fazer os filmes em stop motion com brinquedos que eu tinha e fui me aprimorando”, relatou o jovem sobre o início de sua trajetória no audiovisual.
Hoje, aos 14 anos, o garoto tem convicção de que deseja seguir a carreira na área, mesmo reconhecendo os desafios da profissão. “É difícil, mas sei que vou trabalhar com uma coisa que eu gosto e com pessoas que também gostam da mesma coisa”, afirmou.
Miguel Viglio é um dos talentos confirmados na programação do Festival Internacional Pequeno Cineasta (FIPC), evento gratuito que ocorre em três espaços culturais da cidade do Rio de Janeiro: o Teatro Municipal Carlos Gomes, o Instituto Cervantes e o Jardim Botânico.
Em casa, o jovem cineasta recebe total incentivo da mãe, Chica Amoreira, que celebra com orgulho os prêmios conquistados pelo filho. Apenas com a obra intitulada Circo dos Horrores, produção com a qual concorre nesta edição do FIPC, ele acumulou troféus importantes. Entre eles, destaca-se a premiação de Melhor Filme no Festival de Cinema Escolar de Alvorada (FECEA), no Rio Grande do Sul, em 2025; o Troféu Geração no Festival do Rio, no mesmo ano; e o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular no festival É Tudo Criança, em Minas Gerais, em 2026.
A repercussão do trabalho ultrapassou as fronteiras nacionais. O curta-metragem também figurou como finalista no CineClub Dei Picoli, na Itália, em 2025; no Madeira Curtas Short Film, em Portugal, em 2026; e no REC Film Festival, na Alemanha, também em 2026.
Outro participante de destaque nesta edição é Daniel Nini, de 16 anos. O primeiro contato com as artes cênicas aconteceu no teatro, mas o entusiasmo pelas telonas logo despertou a vontade de produzir seus próprios projetos audiovisuais.
“Com 10 anos eu me toquei que poderia estar nos filmes e realizar filmes. Aí comecei a ver muita coisa para pegar bagagem cultural e tentar botar em prática os meus próprios roteiros”, contou.
Nos primeiros passos, os recursos eram limitados e o jovem utilizava apenas o celular para as gravações. “Nessa época eu não tinha câmera. Quando eu fiz pelo telefone, pensei que nada ia ser aproveitado, porque o som também não estava com uma qualidade muito boa. Mas, com a mágica da edição, ainda mais vendo na tela grande, ficou ótimo. Fiquei muito feliz com o resultado”, relembrou. Com o tempo e o dinheiro obtido por meio de seus trabalhos como ator, ele conseguiu adquirir os equipamentos profissionais necessários.
Júri formado por jovens
Uma das marcas registradas do festival é a participação ativa de crianças e adolescentes na avaliação dos projetos concorrentes. O Júri Oficial é inteiramente composto por jovens na faixa etária de 8 a 17 anos, mesma faixa dos realizadores.
A responsabilidade de analisar as obras é vista com seriedade pelos participantes. Integrante do Júri Oficial, Carina Ki descreveu a vivência como uma experiência transformadora.
“Quando eu soube que eram obras de crianças de 13 a 17 anos, pensei que fosse algo meio experimental, mas fiquei muito impactada com a criatividade e todas as técnicas que elas usaram. As crianças se esforçaram muito para fazer. Fiquei muito impressionada com o talento delas”, declarou.
“Eu tenho o projeto de estudar cinema no futuro, então, foi uma oportunidade muito importante para mim ter contato com produções de outros adolescentes”, concluiu a jurada.
Para a cineasta, produtora, educadora audiovisual e idealizadora do FIPC, Daniela Gracindo, o grande diferencial da iniciativa é inverter a lógica tradicional, permitindo que os próprios jovens assumam as câmeras para narrar suas vivências, em vez de adultos falarem sobre eles.
“Eles se sentem mais participativos com protagonismo, porque a opinião deles importa. Já muda completamente a postura daquela criança que senta na cadeira sabendo que vai eleger o filme que vai ser premiado. A postura dela na cadeira de cinema é outra”, avaliou Daniela.
11ª edição em expansão
O Festival Internacional Pequeno Cineasta celebra sua 11ª edição com uma programação ampliada e um interesse crescente do público infantojuvenil pela Sétima Arte. O projeto nasceu quando Daniela produzia uma homenagem ao avô, o renomado ator Paulo Gracindo.
Na época, seu pai, o ator Gracindo Jr., com quem realizava o documentário, administrava uma produtora onde a cineasta pretendia ministrar aulas de cinema e teatro. Assim, em 2009, uma turma com alunos de 9 a 13 anos inaugurou a Oficina Pequeno Cineasta, capacitando jovens em todas as etapas da produção audiovisual — desde a concepção da ideia e do roteiro até a atuação, direção, filmagem e edição.
A primeira edição do festival ocorreu em 2010, em formato inicial mais modesto. Ao longo dos anos, o projeto expandiu suas oficinas para estados como São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, além de experiências internacionais na Guiana Francesa e na Argentina.
“Por ver todo esse resultado e conseguir abrigar crianças que nunca entraram em uma sala de cinema e ficam estonteadas só com o espaço, imagina quando elas veem que outra garota ou garoto, como elas, fez aquele filme que está na tela. O impacto é muito grande para todos”, pontuou a idealizadora.
Panorama das produções
Nesta edição, o evento exibe 68 filmes produzidos por jovens realizadores de 8 a 17 anos. As obras foram selecionadas a partir de um total de 467 inscrições provenientes de 41 países e de dez estados brasileiros. A programação reúne ficções, documentários e animações que refletem a perspectiva da nova geração sobre temas contemporâneos, como amizades, preconceitos, inteligência artificial, cyberbullying e crises climáticas.
As competições estão divididas em quatro categorias principais — Nacional e Internacional Criança (8 a 12 anos) e Nacional e Internacional Jovem (13 a 17 anos) —, além de três mostras especiais: Oficina Pequeno Cineasta, Filmes Hispânicos e Sustente Sua História, esta última voltada à temática ambiental.
A diversidade de abordagens pode ser observada em obras internacionais como A Night Without You (Malásia) e Orpheus & Eurydice (Estados Unidos), que discutem vínculos humanos, bem como produções focadas em resiliência diante de conflitos e eventos extremos, a exemplo de The City (Ucrânia) e Paani (Estados Unidos).
A pauta ambiental ganha destaque em Axinos (Grécia), Concreto (Contagem, Minas Gerais) e Yanomamis: Guardiões da Floresta (Brasil). Já os impactos da tecnologia, a solidão e a pressão social são retratados em curtas como O Espelho e Segundo Plano, ambos de Porto Alegre, e o espanhol Por Culpa de la IA.
Intercâmbio cultural e formação
A cerimônia de abertura contou com um encontro entre cineastas do Brasil e da Guiana Francesa, exibindo curtas produzidos por cerca de 80 jovens na cidade de Saint-Georges. A programação também incluiu a Mesa Redondinha, espaço de diálogo entre os realizadores estrangeiros e brasileiros, e o workshop Cinema na Sala de Aula, ministrado pela educadora argentina Irene Blei para professores e educadores.
O encerramento do festival prevê a premiação dos vencedores e uma homenagem póstuma a Gracindo Jr., falecido aos 83 anos. O evento conta com o apoio institucional da Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio das Secretarias Municipais de Cultura e de Educação, do Sistema Nacional de Cultura e do Ministério da Cultura.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br









