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‘Guerra de versões’ marca incêndio que destruiu comunidade na CIC

A madrugada de sábado (8) foi marcada pela tragédia na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Um incêndio criminoso na Vila Corbélia provocou a destruição completa de aproximadamente 100 casas na ocupação 29 de Março, com mais de 500 pessoas afetadas diretamente (das quais 80 estão desalojadas). Essa gente, que já vivia em condições precárias em áreas de invasão, agora terá de lidar com a perda do pouco que haviam conquistado com o suor do trabalho.

Após a tragédia, o que se seguiu foi uma guerra de versões. Desde os primeiros momentos, moradores da ocupação acusavam policiais militares de serem os responsáveis pelo incêndio, que felizmente terminou sem mortos. Seria, na versão apresentada por eles, um ato de vingança pela morte do soldado Erick Norio, do 23º Batalhão, morto no começo da madrugada da última sexta-feira – ele estava há cinco anos na PM e deixou esposa e um filho de 4 anos.

A Polícia Militar, por sua vez, nega participação na ocorrência, alegando ter evidências da participação do crime organizado na morte do policial e no incêndio. Segundo a corporação, o ataque contra a invasão seria uma tentativa de intimidar os moradores a colaborarem com as investigações sobre a morte do soldado Norio.

Além disso, a PM também argumenta que todas as ações da operação policial na sexta-feira ocorreram dentro da legalidade, enquanto os moradores relataram a jornalistas que os policiais permaneceram a maior parte do dia na invasão, com relatos de agressões contra mulheres e idosos na tentativa de fazer com que o assassino do policial fosse revelado e localizado. Mais tarde, ele acabou se entregando à polícia (mas não foi preso).

Agora, caberá à Polícia Civil desvendar o que há de verdade e o que há de mentira em cada uma das versões. Dois inquéritos, inclusive, já foram abertos: um para apurar o incêndio na Vila Corbélia, investigação essa que ficará a cargo da Delegacia de Explosivos Armas e Munições (Deam); e outra para apurar a morte do policial militar, sob responsabilidade da Divisão de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP).

Outras polêmicas
No final de outubro, Ruhan Luiz Machado, de 20 anos, foi morto após ser baleado durante uma abordagem policial no bairro Cajuru. Segundo a PM, o rapaz teria atidado contra a equipe, que revidou e o matou. A família da vítima, porém, contesta a versão e fala em execução.

No mesmo mês, outro jovem, Deivid Luigi Fronza, foi morto pela PM, no Pilarzinho. A corporação alega que ele integraria um bando que assaltou um policial no bairro Tanguá. A família nega: “Eu vou até o fim, até o inferno, para provar a inocência do meu filho. Eu quero Justiça”, chegou a afirmar a mãe de Deyvid.

Outro episódio foi um acidente ocorrido na Linha Verde que matou quatro pedestres. Após a ocorrência, os policiais chegaram a dizer que estavam atendendo um chamado e com a sirene ligada. As investigações comandadas pela Dedetran, contudo, mostraram que eles mentiram em depoimento. A viatura dirigida por eles transitava a 138 km/h quando bateu no meio fio, perdeu o controle e atropelou os pedestres.

Suspeito de matar policial se entregou, mas não foi preso
Suspeito de matar a tiros o policial militar Erick Norio, um homem de 33 anos identificado como Antônio Francisco dos Prazeres Ferreira tentou se entregar à Polícia Civil e rodou  por Curitiba com seu advogado, José Valdeci de Paula, por diversas unidades da Polícia Civil para se apresentar na última sexta. Mas não conseguiu.
Antônio e o advogado foram até a Central de Flagrantes, a Delebacia de Vigilância e Capturas, ligaram para o Gaeco… Mas o homem não ficou preso por já ter passado o período do flagrante do crime que vitimou o policial e não haver mandado de prisão em aberto contra o suspeito.
Chama a atenção, contudo, o fato de a DHPP, responsável por investigar o homicídio de Norio, não ter sido contatada por nenhuma das delegacias sobre a tentativa do suspeito de se entregar. Embora não pudesse ficar preso, o homem poderia ter sido interrogado pelos investigadores e depois liberado. Agora, um procedimento interno irá apurar a atuação dos policiais que se recusaram a receber Antônio.

Doações ajudam vítimas de incêndio criminoso a recomeçar
As famílias que perderam as suas casas na Vila Corbélia precisam de doações. Quem quiser ajudar pode doar roupas, sapatos, itens de higiene pessoal, móveis, colchões, cobertores e materiais de construção. As doações podem ser entregues na própria ocupação, na Estrada Velha do Barigui, na Banca da Bia, durante todo o dia.
Além disso, a Fundação de Ação Social (FAS) possui um canal oficial para receber doações durante todo o ano, que é o Disque Solidariedade. Fica na Eduardo Sprada, 4520. De acordo com a Prefeitura de Curitiba, a FAS está atendendo a população atingida no CRAS e também por busca ativa. Um gabinete de gestão de crise foi instalado na regional e até ontem as equipes da FAS e Defesa Social haviam registrado 134 atendimentos desde o incêndio.
Durante a madrugada de sexta para sábado, cerca de 80 pessoas que tiveram suas casas atingidas pelo fogo, foram atendidas pela Prefeitura na Escola Municipal Doutor Hamilton Calderari Leal. Elas receberam colchão, cobertores e alimentos. Cerca de 15 pessoas pernoitaram na escola no primeiro dia. As demais preferiram ir para a casa de parentes e amigos. Já na segunda noite, o abrigo foi transferido para a ONG Anjos, que recebeu 18 desabrigados.

 

Bem Paraná – 10/12/2018

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