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Legado de Mãe Bernadete completa três anos com pedidos de justiça na Bahia

A preservação da memória e a busca contínua por justiça norteiam as homenagens prestadas por familiares, amigos e entidades de direitos humanos, que marcam os três anos do assassinato da liderança quilombola Mãe Bernadete.

A ativista foi executada com 25 disparos de arma de fogo, a maioria concentrada na região do rosto, enquanto descansava na sala de sua residência, situada na comunidade de Pitanga dos Palmares, no município de Simões Filho (BA).

Para rememorar a data, uma missa solene foi programada no Santuário do Senhor do Bonfim, localizado em Salvador (BA).

“Acredito que, apesar dos desafios cotidianos, que existem em muitas comunidades quilombolas, a gente tem feito um bom trabalho ao preservar o legado dela”, pontua o neto, Wellington Pacífico, de 25 anos de idade.

Casa de Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, na Bahia. Casa de Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, na Bahia.

Feridas abertas e busca por reparação

Wellington estava presente no imóvel com outras duas crianças da família no momento em que a avó foi morta. O episódio representou a segunda grande tragédia familiar do jovem, cujo pai, o também ativista Flávio Pacífico, conhecido como Binho, foi assassinado em 2017, aos 36 anos de idade.

“São feridas que não foram reparadas. Para a nossa comunidade, é uma dor perder minha avó, perder meu pai e ainda por cima viver, conviver com a impunidade de não haver justiça”, desabafa.

O neto destaca que a avó dedicou seus últimos anos a cobrar esclarecimentos sobre o homicídio de Binho. Segundo ele, a família se esforça para transformar o luto em combustível para a luta e para manter vivas as boas recordações.

Decisão pelo direito e andamento judicial

Integrante do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), Wellington decidiu cursar direito em uma instituição de ensino superior baiana com o objetivo de atuar na defesa de sua família e das comunidades tradicionais.

“Tive minha família destruída, atravessada por tragédias, tendo que se reconstruir a cada dia. Essas vivências me fizeram ter outro olhar para o direito”, declarou.

No âmbito da justiça criminal, dois dos réus apontados pelo assassinato já foram julgados em abril. O executor, Arielson da Conceição dos Santos, recebeu condenação superior a 40 anos de reclusão, enquanto Marílio dos Santos, apontado como participante no planejamento, foi sentenciado a 29 anos e nove meses de prisão.

Outros três suspeitos aguardam a realização do júri popular, com expectativa de desdobramentos judiciais ainda para o segundo semestre. O processo corre sob sigilo.

Manutenção do legado e projetos comunitários

Como forma de perpetuar os ensinamentos de Mãe Bernadete, os familiares preparam uma nova edição do festival de cultura e arte quilombola. A iniciativa é liderada por Jurandir Pacífico, filho da ativista, que busca firmar parcerias para assegurar a continuidade de ações sociais, como oficinas de artesanato, iniciativas de cozinha solidária e festivais culturais.

Evento na casa de Mãe Bernadete destaca legado da ativista e pede justiça por sua morte. Evento na casa de Mãe Bernadete destaca legado da ativista e pede justiça por sua morte.

Cobrança por proteção estatal

A ativista Selma Dealdina, representante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), enfatiza que a violência sofrida por Mãe Bernadete expõe a vulnerabilidade das lideranças agrárias.

“A gente espera mais do Estado brasileiro na proteção dos defensores e defensoras de direitos humanos, das lideranças quilombolas que fazem a luta pela terra, que fazem a luta para salvaguardar os territórios”, afirmou.

Em nota oficial, a Conaq cobrou medidas concretas de segurança e destacou que a ialorixá transformou sua trajetória em uma trincheira de resistência em prol de seu povo.

Recorte de gênero e raça

A historiadora Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, aponta que as mulheres negras defensoras de direitos humanos enfrentam uma sobreposição de vulnerabilidades associadas ao racismo e ao sexismo estrutural.

Dados levantados pela Conaq indicam que ao menos 22 mulheres quilombolas foram assassinadas entre 2016 e 2024, além de dezenas de ameaças registradas no período. Diante desse cenário, a entidade elaborou um plano emergencial de proteção voltado para lideranças femininas nos territórios tradicionais.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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