Cultura

Iniciativa artística inspirada em clássico da literatura transforma rotina em presídio paranaense

A Secretaria de Estado da Segurança Pública, por intermédio da Polícia Penal do Paraná, realizou recentemente a exibição oficial de um projeto artístico fundamentado na renomada obra “Vidas Secas”, escrita por Graciliano Ramos. A ação, conduzida nas dependências da Penitenciária Estadual de Foz do Iguaçu III – Unidade de Progressão, consolidou-se como mais um mecanismo voltado ao desenvolvimento humano e à reabilitação dos custodiados dentro do sistema penitenciário paranaense.

Desenvolvida em conjunto com o Centro Estadual de Educação Básica de Jovens e Adultos Helena Kolody, a iniciativa buscou utilizar a atmosfera árida e os desafios enfrentados pelos personagens do romance para promover um paralelo com a perseverança e a busca por dignidade humana. O projeto envolveu diretamente oito pessoas privadas de liberdade, que participaram de todas as etapas de criação, desde a leitura interpretativa até a materialização dos conceitos em telas de pintura.

Durante a solenidade de apresentação dos trabalhos, quatro dos detentos realizaram leituras de textos autorais inspirados no livro. Na sequência, os convidados e autoridades presentes puderam apreciar as obras pictóricas expostas nas dependências educacionais da unidade. O principal intuito da atividade é estimular o pensamento crítico, a sensibilidade artística e a livre expressão, funcionando como uma ferramenta terapêutica e pedagógica para a reconstrução pessoal dos participantes.

Para o coordenador regional da corporação em Foz do Iguaçu, Cássio Rodrigo Pompeo, ações dessa natureza evidenciam que o cumprimento da pena deve estar atrelado a oportunidades reais de transformação. Segundo ele, a eficácia do sistema prisional se comprova quando o indivíduo retorna ao convívio em comunidade capacitado e consciente de seus deveres e direitos, mitigando os índices de reincidência criminal por meio da educação e da cultura.

O processo criativo e a literatura como ferramenta de ressocialização

A condução pedagógica das atividades ficou a cargo do educador Pedro Reis, que atua na alfabetização e coordena o programa de Remição pela Leitura no estabelecimento penal. De acordo com o professor, a escolha pelo clássico de Graciliano Ramos ocorreu devido à forte carga dramática e à representação do sofrimento humano, elementos que dialogam com as reflexões promovidas em sala de aula.

Após a etapa de leitura individual e coletiva do livro, os participantes assistiram à adaptação cinematográfica da obra e debateram os temas centrais antes de iniciarem a produção pictórica. O educador ressalta que a proposta exigiu originalidade dos alunos, que desenvolveram rascunhos fundamentados em suas próprias perspectivas e bagagens culturais antes de transferirem os traços para as telas definitivas. O resultado culminou em oito quadros que passam a integrar o acervo permanente da galeria da unidade prisional paranaense.

A direção do complexo penitenciário, representada por Stenio Couto do Nascimento, reforçou a relevância da cooperação institucional com a rede de ensino estadual. O dirigente apontou que o projeto de remissão de pena por meio de leituras avaliadas é um dos pilares fundamentais para engajar os apenados nas atividades educativas, destacando que a transformação comportamental e social tem na educação sua base primordial.

Impacto na comunidade e visão dos participantes

O evento de lançamento reuniu diversas autoridades locais, incluindo representantes do Conselho da Comunidade, dirigentes e professores da instituição educacional parceira, além de acadêmicos e docentes do curso de Direito do Centro de Ensino Superior de Foz do Iguaçu, ampliando o diálogo entre o ambiente prisional e a sociedade civil organizada.

Um dos detentos envolvidos na confecção dos quadros relatou a experiência de traduzir a miséria e a resistência do sertanejo nordestino para as artes visuais, optando por técnicas que valorizam a sustentabilidade e o uso consciente de recursos. Para os idealizadores, testemunhar o engajamento e a profundidade das reflexões geradas pelos custodiados reforça a validade de investir na cultura como instrumento de emancipação e cidadania durante o período de reclusão.

Fonte:: policiapenal.pr.gov.br

Aécio Novitski

Idealizador do Site Araucária no Ar, Jornalista (MTB 0009108-PR), Repórter Cinematográfico e Fotógrafico licenciado pelo Sindijor e Fenaj sobre o número 009108 TRT-PR

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