
Nas vastas estepes da Mongólia, o criador de gado Batchuluun Maamun, de 57 anos, aprendeu desde cedo a decifrar os sinais do céu e da terra. Se o vento sopra com força do sul, a chuva é iminente; se o sol nasce circundado por um halo que lembra um arco-íris, o rigor do inverno e a neve pesada estão a caminho. No entanto, nas últimas décadas, essas leituras tradicionais vêm sendo acompanhadas por uma crescente onda de preocupação e incerteza diante das rápidas transformações ambientais.
Eventos climáticos extremos e episódios recorrentes de seca têm devastado a vegetação local, impondo sérias dificuldades a ovelhas, cabras, cavalos e bovinos, que sofrem com as altas temperaturas. Em 2010, um rigoroso inverno conhecido no país como dzud dizimou 700 dos 1,3 mil animais pertencentes à família de Maamun. Anos mais tarde, no dzud de 2020, o impacto se repetiu com a perda de 20% do rebanho restante.

Batchuluun vive junto com sua família em uma comunidade de pastores situada na zona de amortecimento do Parque Nacional de Hustai, a cerca de 100 quilômetros a sudoeste da capital mongol. A categoria da região permite a habitação e o uso sustentável do solo, embora seja regida por diretrizes rígidas de preservação ambiental.
Há 27 anos, o grupo migrou para essa área em busca de melhores condições de sobrevivência, percorrendo uma distância de mil quilômetros desde o ponto anterior. Essa mobilidade constante é a essência do modo de vida nômade, regulada estritamente pelas estações do ano. No período mais quente, a família permanece no acampamento atual, enquanto no inverno transfere-se para uma cabana localizada a cerca de 10 quilômetros dali, o que garante maior proteção contra as baixas temperaturas.
Contudo, a degradação das pastagens, o sobrepastoreio, a expansão da atividade mineradora, a escassez de recursos hídricos e os fenômenos climáticos extremos colocam em risco um estilo de vida ancestral que depende integralmente da vitalidade dos ecossistemas.
Dados da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) apontam que entre 70% e 76% do território da Mongólia sofrem com processos de desertificação e degradação do solo, o que representa aproximadamente 36 milhões de hectares afetados.
Diante desse cenário, Batchuluun alimenta expectativas de que as autoridades reunidas em Ulaanbaatar para a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) consigam formular respostas eficazes para assegurar o futuro da terra e das comunidades nômades.
“Achamos positivo que temas como seca e sobrepastoreio estejam sendo debatidos, pois são nossos maiores problemas. Queremos que cada um dos participantes compartilhe da ideia de respeitar a natureza e que isso seja ensinado para as futuras gerações desde os primeiros anos de vida”, declara o pastor.

A necessidade de descanso para a terra
Historicamente, as vastas extensões de pastagens mongóis foram utilizadas por nômades e criadores sem grandes delimitações formais. Contudo, o inchaço dos rebanhos e outras pressões socioeconômicas acabaram superando a capacidade de suporte ecológico de diversas regiões.
Balanços oficiais do governo indicam que a Mongólia registrava cerca de 58 milhões de animais de criação em 2025, o que representou um aumento de 0,8% em relação ao ano anterior. Esse montante já havia alcançado o patamar de 71 milhões antes do dzud de 2023, evento que dizimou milhões de cabeças.
O volume de animais contrasta fortemente com a população humana do país. A Mongólia conta com cerca de 3,4 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 700 mil — ou 30% — mantêm um estilo de vida nômade ou seminômade. Embora seja o 18º maior país do mundo em extensão territorial, ostenta a menor densidade demográfica do planeta.
Como alternativa para combater a degradação do solo, a família de Batchuluun e seus vizinhos adotaram a prática de deixar determinadas áreas em pousio. Para permitir a regeneração da vegetação, eles decidiram ficar até dois anos sem retornar a um dos locais onde habitualmente pastoreavam o gado.
A estratégia surtiu efeito, e o retorno à área evidenciou a recuperação bem-sucedida da cobertura vegetal nativa.
Paralelamente, muitos criadores passaram a priorizar animais de maior rendimento e a diversificar suas fontes de receita, otimizando o aproveitamento de leite, carne, lã e derivados.
“Antes, era como se as pessoas quisessem aumentar cada vez mais o número de animais. Agora há uma preocupação maior em aproveitar melhor cada um deles”, relata Maamun.
O desafio da sucessão geracional

Para Oyunchimeg Shuurai, de 53 anos, esposa de Batchuluun, essa mudança de mentalidade é fundamental para legar condições melhores às próximas gerações.
“Se continuássemos apenas fazendo o que sempre fizemos, sem aprender outras formas de viver e produzir, isso não seria bom para o futuro”, aponta Oyunchimeg.
A continuidade do nomadismo depende diretamente do interesse dos jovens em perpetuar essa cultura. O casal tem quatro filhos e afirma não impor obrigações, embora demonstre o desejo de que pelo menos um deles decida prosseguir com a tradição familiar.
“Não pode ser uma obrigação”, pondera Maamun. “Mas eu ficaria feliz se algum deles quisesse”.
Para a família, a sobrevivência do modo de vida nômade passa pela capacidade de unir o conhecimento tradicional às inovações contemporâneas.
Atualmente, eles utilizam painéis solares para gerar eletricidade e preservar alimentos, além de empregar esterco seco de animais como combustível para o aquecimento doméstico durante o inverno, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis.
Ainda assim, a tecnologia não substitui o princípio central que rege a convivência com a estepe: proteger a natureza não significa isolar a terra, mas compreender o ritmo certo de sua utilização, sem extrair dela mais do que a capacidade de regeneração permite.
“Quando a única preocupação passa a ser o lucro, a terra acaba sendo destruída”, conclui Oyunchimeg.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br









