Educação

Professor de Araucária leva sala de aula para dentro de jogo e conquista estudantes do país inteiro

O desafio de atrair a atenção dos alunos, e mantê-los acompanhando as aulas, durante o período da pandemia, fez surgir diversas estratégias de ensino à distância. A escolha do professor Helton Alvares Gonçalves foi a de levar a sala de aula para dentro do Minecraft, um jogo de computador lançado em 2009.

A princípio, Helton, que é bacharel em física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), sempre gostou de dar aula, mas não gostava da maneira que as aulas estavam acontecendo durante o período conturbado de 2020. Foi nesse momento que ele decidiu inovar.

“Tem como eu fazer algo diferente? Pedi permissão para o dono do colégio se eu podia fazer aulas dentro do Minecraft. Aí na hora ele aceitou, falou ‘claro, pode fazer’. Daí eu fiz, deu muito certo, os alunos começaram a participar mais das aulas”, conta o professor Helton Alvares Gonçalves.

Ele completa com a fala de que os outros professores reclamavam que os alunos não apareciam nas aulas deles, mas nas de Helton sempre estavam presentes. Foi quando ele percebeu que era “um método atrativo” e que os alunos “gostavam de aprender desse jeito”.

Dado ao sucesso de público dos alunos da escola particular de Araucária nas aulas dentro do jogo, o professor decidiu expandir o projeto para todo o Brasil de forma gratuita.

“Eu vi que tava muito legal o negócio e falei ‘vou fazer para o Brasil todo, vou abrir online. Vou fazer, além das aulas do colégio, as minhas próprias para qualquer um!”

-cita Helton

O nome Craftsapiens veio da junção das palavras, Craft – do inglês “Construir, fabricar” e também presente no nome do jogo “Minecraft” – e sapiens – do latim “sabedoria, sábio”.

“Era basicamente um ‘cursinho’ de exatas. A galera participava para fazer preparativo para o Enem, preparativo para provas concurso público, e foi dando certo, foi dando resultado. As pessoas foram vendo que era legal, que não era só uma brincadeira, que era de verdade mesmo, e tomou a proporção que está hoje, com vários professores dando aula.”

-explica o professor

Como conta Helton, o que no início era apenas um “cursinho de exatas”, hoje tem aulas não apenas das exatas, mas também da língua portuguesa, história, geografia, inglês. Além disso, o projeto já teve aulas de italiano, alemão e japonês, como ele mesmo conclui, “já teve aula de tudo”, para mais de 20 mil alunos.

  • 1/2 Projeto criado durante a pandemia segue crescendo nos dias de hoje – Foto: Craftsapiens/Divulgação

Início conturbado

Durante a fase inicial do projeto, Helton conta que passou por momentos difíceis, e relaciona esse período com o momento que viveu com sua mãe, que na época fazia tratamento contra o câncer.

Durante as sessões de quimioterapia, o professor acompanhava a mãe, e com seu notebook, trabalhava no projeto, otimista de que seria um sucesso na estreia, e com isso, ajudar sua mãe com um tratamento mais caro.

O projeto demorou para engrenar e ser conhecido nacionalmente como ele previa. Helton precisou tirar dinheiro do próprio bolso para investir em marketing e no servidor do jogo. Infelizmente, sua mãe faleceu sem ver o início da Craftsapiens sair do papel, contudo, ele diz ter certeza de que ela está vendo tudo de algum lugar.

Um mundo dentro do nosso mundo

Com a intenção de unir a educação com a diversão, além das aulas, dentro do servidor do jogo os alunos também podem jogar o Minecraft através de um survival geopolítico. 

Nesse modo de jogo, os usuários encontram um mapa em escala da Terra, e nele podem construir cidades dentro dos continentes e experimentar as diferentes formas de poder por conta própria, escolhendo como governam o seu pedaço do mapa.

Projeto criado durante a pandemia segue crescendo nos dias de hoje - Foto: Craftsapiens/Divulgação
Projeto criado durante a pandemia segue crescendo nos dias de hoje – Foto: Craftsapiens/Divulgação

“Tem toda a organização política das cidades. Quem cria a cidade lá no servidor tem que organizar a cidade, fazer votação. Tem cidade que é democrática, tem cidade que é ditadura. O cara vai lá, é ditador, e começa a perder membros daí ele percebe que a ditadura é ruim, então ele, por conta própria, ao longo do tempo ele vê que a ditadura é ruim.”

-responde Helton

1/2 Projeto criado durante a pandemia segue crescendo nos dias de hoje – Foto: Craftsapiens/Divulgação

Obter recursos não apenas por meio das aulas

Para manter as cidades funcionando os alunos precisam adquirir recursos. A captação da moeda virtual do jogo acontece basicamente de duas formas.

Após assistir as aulas, os alunos realizam testes de conhecimento para, além de reforçar o conteúdo aprendido, ganhar recompensas dentro jogo, no caso, a moeda “sapiens”.

Moeda do jogo faz alusão ao físico Albert Einsten - Foto: Craftsapiens/Divulgação

Moeda do jogo faz alusão ao físico Albert Einsten – Foto: Craftsapiens/Divulgação

“O sapiens ele consegue respondendo as perguntas que são feitas lá no quiz, lá no finalzinho, ou em outros eventos.”, diz Helton em entrevista à Banda B.

Além da coleta pelo conhecimento, os jogadores podem coletar recursos através de plantações e indústrias dentro do servidor, da mesma forma que acontece no mundo fora do computador.

Expansão e busca de novos professores

O projeto não tem lucro. Ele é mantido pelos próprios usuários que, além de acompanhar as aulas gratuitas, podem comprar mensalmente um pacote premium por R$49,99. Esse pacote dá acesso a aulas extras e mais recursos que podem ser usados dentro do jogo.

Helton conta que a ideia é expandir os horários de aula para atender cada vez mais alunos, e faz um convite para outros professores que queiram, de forma voluntária, participar das aulas e do projeto.

“Estamos em busca de professores voluntários que queiram e estejam dispostos a participar desse metaverso.”

-solicita Helton Alvares Gonçalves

Aos professores interessados, Helton orienta que envie um e-mail para [email protected].

Projeto criado durante a pandemia segue crescendo nos dias de hoje - Foto: Craftsapiens/Divulgação
Projeto criado durante a pandemia segue crescendo nos dias de hoje – Foto: Craftsapiens/Divulgação

O que é o Minecraft

Minecraft é um jogo eletrônico no estilo de sobrevivência desenvolvido e lançado pela Mojang em 2009. Em 2014, o jogo foi comprado pela Microsoft pelo valor de 2,5 bilhões de dólares.

O jogo consiste em sobreviver em um mundo “quadrado” coletando recursos, seguindo a essência do nome, que em uma tradução livre seria “minerar e construir”.

Febre em crianças e adolescentes na década passada, Minecraft era uma das principais fontes de conteúdo entre “youtubers” de todo mundo. Monark, Feromonas, Rezendeevil, Tazercraft, AuthenticGames, Leon (Coisa de Nerd), VenomExtreme e BRKsEDU são alguns nomes que, na época, surfaram e aproveitaram o momento do jogo.

Hoje em dia, o game ganhou inúmeras atualizações de conteúdo, gráficas e de funcionalidades, e mantém uma base de fãs fiéis que seguem explorando as diversas funcionalidades do mundo virtual.

Banda B

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