
O uso de ferramentas baseadas em inteligência artificial (IA) tem ganhado espaço na rotina de professores da rede pública e privada no Brasil, servindo como recurso para inovar práticas pedagógicas, otimizar tarefas administrativas e engajar alunos de diferentes idades. A tecnologia, que avança rapidamente, desafia educadores a repensarem o letramento digital e a mediação em sala de aula.
Um exemplo da aplicação dessa tecnologia ocorreu em Campinas, interior de São Paulo. A professora Giovanna Macedo utilizou uma ferramenta generativa para ilustrar como seus 31 alunos de 9 e 10 anos, matriculados no 4º ano do ensino fundamental da Escola Estadual Professor Carlos Cristovam Zink, seriam representados no futuro exercendo as profissões que sonham seguir.
As reações das crianças, registradas em vídeo, mostraram expectativas que variavam de jogador de futebol e astronauta a veterinária, bailarina e artista. A iniciativa teve como objetivo aproximar os estudantes de uma fase distante da infância e estimular a autoestima e a percepção de potencial.
“Para mim, como professora, é muito significativo criar situações em que os alunos se sintam valorizados e vejam que alguém acredita neles, que têm potencial para irem além”, pontua a docente, que atua no magistério há oito anos.
Cultura digital e formação docente
Com a transição de métodos tradicionais para o ambiente digital, especialistas apontam a necessidade de capacitação contínua para os profissionais da educação. Kassula Correa, diretora-geral de uma instituição de ensino privada no Rio de Janeiro, destaca que o acesso facilitado a informações não substitui a capacidade de pesquisa profunda e de análise crítica por parte dos estudantes.
“Uma criança pode ter facilidade para mexer no celular e, ainda assim, não saber pesquisar com profundidade, identificar uma informação falsa ou compreender os riscos de compartilhar determinados dados”, avalia Kassula, reforçando que a escola deve se manter como um espaço essencial de desenvolvimento socioemocional e relações humanas.
No Distrito Federal, o professor e pesquisador Marcio Luiz Dias atua há 13 anos na formação continuada de docentes voltada para tecnologias educacionais. Para ele, a velocidade das transformações digitais torna inviável que os currículos tradicionais das faculdades permaneçam sempre atualizados, o que torna a capacitação prática indispensável.
Nas orientações transmitidas aos professores da rede pública distrital, a tônica é direcionar o uso das ferramentas para além do aspecto instrumental, priorizando uma abordagem crítica, colaborativa e pedagógica. A IA, nesse contexto, pode auxiliar na automação de rotinas operacionais e burocráticas, liberando tempo para o planejamento de aulas e para o atendimento individualizado aos alunos.
No Centro de Ensino Médio Integrado à Educação Profissional de Taguatinga, também no Distrito Federal, o professor Jaime Guilherme de Oliveira utiliza a tecnologia para criar conteúdos visuais, adaptar avaliações para estudantes com neurodivergências e desenvolver recursos lúdicos, como um jogo interativo voltado ao ensino de normas técnicas para a elaboração de trabalhos acadêmicos.
Apesar dos ganhos em agilidade, os educadores ressaltam que a tomada de decisões pedagógicas, a sensibilidade e a mediação ética continuam sob a responsabilidade exclusiva do corpo docente.
Desafios e diretrizes nacionais
Entre os principais desafios apontados por especialistas está o combate ao uso mecânico ou superficial das ferramentas, garantindo que os estudantes desenvolvam autonomia na análise, na síntese e na argumentação. O letramento digital surge, assim, como uma estratégia para prevenir a desinformação e estimular o pensamento crítico.
Em âmbito federal, o Ministério da Educação (MEC) informou que planeja publicar uma nova resolução com diretrizes para o uso pedagógico da inteligência artificial. O documento tem como meta unificar parâmetros nacionais, preservar a autonomia dos professores, garantir a segurança jurídica das redes de ensino e assegurar a proteção dos estudantes. A iniciativa soma-se a programas voltados à expansão da conectividade nas escolas públicas de educação básica em todo o país.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br










