
Mesmo diante do placar mais desfavorável registrado nas últimas três décadas, o embaixador de Cuba no Brasil, Victor Manuel Cairo Palomo, celebrou a aprovação de uma resolução na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas que repudia o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos à ilha há mais de 60 anos.
Durante entrevista concedida em Brasília, o diplomata criticou a postura do governo norte-americano e destacou a resiliência de seu país frente às sanções. “Em um mundo onde os Estados Unidos lideram novas práticas do fascismo, por meio de chantagens e ameaças a países pequenos, imposição de guerras econômicas e tarifas, Cuba manteve o apoio da imensa maioria dos países da comunidade internacional. É uma grande vitória de nosso povo”, declarou Victor Manuel Cairo Palomo.
A votação, realizada em uma terça-feira, terminou com 130 votos favoráveis — incluindo o posicionamento do Brasil —, 17 contrários e 25 abstenções. Apesar da aprovação, o levantamento evidenciou a menor adesão internacional ao fim do bloqueio em 30 anos, período em que a pauta chegou a ultrapassar 190 votos favoráveis na Assembleia Geral.
Especialistas apontam que a retração no apoio é fruto direto de uma intensa campanha articulada pelo governo do presidente norte-americano Donald Trump para convencer nações aliadas a rejeitarem o texto. Para efeito de comparação, em 2024, apenas dois países votaram contra a medida: os próprios Estados Unidos e Israel.
No entanto, a lista de oposição ampliou-se para 17 governos, englobando países como Argentina, Bósnia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Hungria, Israel, Lituânia, Marrocos, Macedônia do Norte, Paraguai, Eslovênia, Trindade e Tobago, Ucrânia, Emirados Árabes Unidos, República Tcheca e os Estados Unidos. Além disso, o número de abstenções saltou de apenas uma para 25, com destaque para nações latino-americanas que historicamente apoiavam a causa cubana, a exemplo de Chile, Honduras, Guiana, Haiti, Jamaica e Peru.
O custo humano do embargo
Ao abordar os reflexos práticos da política de Washington, o embaixador reforçou que o bloqueio viola o direito internacional e cobrou atenção para o impacto humanitário severo sofrido pela população civil na ilha caribenha.
“Foram mais de 1,5 mil crianças que morreram em Cuba por não ter acesso a medicamento e por falta de combustível para manter as incubadoras daqueles que nascem prematuramente ou com baixo peso. Não são apenas números, são vidas”, lamentou o representante diplomático.
Dados indicam que, entre 2025 e 2026, paralelamente ao endurecimento das sanções econômicas promovidas pela gestão de Donald Trump, a taxa de mortalidade infantil no país dobrou, saltando de 4,4 óbitos por mil nascimentos para 9,9.
O embaixador de Cuba no Brasil, Victor Manuel Cairo Palomo, durante entrevista.
Um desafio que afeta a comunidade internacional
Para o governo cubano, o embargo econômico implementado como retaliação à Revolução Cubana de 1959 deixou de ser um impasse bilateral e passou a representar uma ameaça global. Segundo Victor Manuel Cairo Palomo, a postura de Washington serve de alerta para o restante do planeta.
“É um tema que tem que ver com o mundo porque hoje é Cuba, mas amanhã pode ser qualquer outro país que os Estados Unidos desejarem”, pontuou, fazendo referência direta às diretrizes geopolíticas adotadas pela Casa Branca para a América Latina, que visam, entre outros pontos, conter a influência e as parcerias comerciais da China na região.
O diplomata também detalhou o funcionamento das chamadas sanções secundárias, mecanismos punitivos aplicados a empresas estrangeiras que mantêm transações comerciais com Havana, o que eleva exponencialmente os custos operacionais e logísticos para a importação de suprimentos básicos.
“As sanções secundárias têm um impacto tremendo. Temos mais de 7 mil contêineres comprados por Cuba parados em portos de todo o mundo porque as transportadoras não querem entregar. Chegam à Jamaica e deixam lá porque os donos dos navios têm medo de represálias dos Estados Unidos”, exemplificou.
Escalada nas restrições energéticas e comerciais
Desde o início de 2025, com a retomada do poder por Donald Trump, o cerco econômico foi intensificado por meio de restrições severas ao setor energético, incluindo ameaças diretas a fornecedores de petróleo para Cuba.
A ofensiva gerou momentos críticos de desabastecimento, como um período de três meses sem o recebimento de nenhum barril de combustível, resultando em recorrentes apagões elétricos que ultrapassaram dez horas diárias em Havana.
A asfixia econômica também provocou a retração na malha de voos internacionais, a retirada de operadoras hoteleiras estrangeiras e a suspensão de serviços financeiros essenciais, como a atuação da bandeira de cartões Visa, impactando diretamente o turismo, principal motor da economia cubana.
Recentemente, o Departamento de Estado norte-americano, sob a liderança de figuras ligadas à comunidade de origem cubana como Marco Rubio, introduziu novas restrições direcionadas a empresas de tecnologia com vínculos na ilha. Paralelamente, instâncias judiciais dos Estados Unidos determinaram medidas contra o ex-presidente cubano Raúl Castro.
Reformas estruturais e alternativas
Como resposta ao cenário adverso, o governo de Cuba implementou reformas econômicas com o objetivo de reestruturar a economia nacional e minimizar os danos causados pelo isolamento comercial. O embaixador ressaltou que, embora seja prematuro mensurar o alcance total das mudanças, análises preliminares apontam para perspectivas de fomento produtivo.
“Estamos mudando a matriz energética para energia solar de maneira acelerada com ajuda da China e estamos trabalhando muito forte na produção de alimentos porque nosso país não pode esperar que o presidente dos Estados Unidos queira mudar seu genocídio contra Cuba”, concluiu o embaixador.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br









